No dia 19 de maio aconteceu na Casa Benet Domingo a Oficina de Composição Cênica – corpo, espaço e voz em movimento, ministrada por Dani Greco. O resultado desta oficina de apenas 2 horas de duração, segue no vídeo abaixo!
A próxima oficina acontecerá no dia 30 de junho das 19h às 21h. As inscrições são feitas através do e-mail: daniegreco@gmail.com
Sobre Composição Cênica
A oficina tem como objeto de pesquisa o corpo como um entre-lugar, que constrói arquiteturas, que projeta relações, que desestabiliza padrões, colocando-se como ponto de tensionamento da experiência artística. Conforme Bhabha (1998, p. 27):
“O trabalho fronteiriço da cultura exige um encontro com “o novo” que não seja parte do continuum de passado e presente. Ele cria uma ideia do novo como ato insurgente de tradução cultural. Essa arte não apenas retorna o passado como causa social ou precedente estético; ele renova o passado, refigurando-o como um “entre-lugar” contingente, que inova e interrompe a atuação do presente. O “passado-presente” torna-se parte da necessidade, e não da nostalgia, de viver. (idem) (grifos do autor).
O ‘novo’ é o ‘outro’, seja este outro corpo ou espaço-tempo. E são nessas zonas que estão as fronteiras deste espaço-tempo, entendendo-se por fronteira um lugar de experimentação, não é chegada, não é saída, não é estar, não é passagem. Nas fronteiras os estados se diluem um no outro, permitindo sobreposições. O corpo é esse lugar fronteiriço, entre-lugar onde o novo/outro está no entremeio do espaço-tempo, sobrepondo passado-presente. O novo então seria um futuro de sobreposições, assim como o corpo contemporâneo.
O texto “Tratado de Nomadologia” de Deleuze e Guattari, estabelece algumas diferenças entre os jogos de tabuleiro: xadrez e go. No xadrez, as regras já estão implícitas nas ações de cada peça, a cada movimento, há uma ocupação premeditada do espaço-tempo. No go, as ações são realizadas por outro corpo, que se utiliza de simples ordenações aritméticas para seu deslocamento no espaço-tempo, mantendo assim um vasto campo de possibilidades.
Para Deleuze e Guattari, o espaço do xadrez é a polis, e o do go é o nomos. A polis tem uma estrutura definida e definidora de objetos, agentes e ações – portanto, um território constituído. O nomos se caracteriza pelo espaço do indeterminado, sem uma estrutura definida; no go, cada lance das peças consiste num processo de territorialização e desterritorialização desse espaço-tempo, é o espaço do nômade.
Bairros, rios, edifícios, avenidas, pontes, praças, monumentos, a cidade está demarcada por estes territórios, os quais são ordenadores do cotidiano dos corpos urbanos. Seus habitantes elegem lugares, que se tornam referências para a construção de seus mapas corporais. O nômade, ao contrário dessa eleição, perde esses lugares como referência e passa a compor os mapas de acordo com sua permanente circulação, criando cartografias afetivas, de acordo com o que o atravessa e não de acordo com funções pré-estabelecidas por um mapa ou por um organismo social. Para o nômade, sua única referência é ele mesmo, o seu corpo.
Portanto, essa atitude ativa diante do deslocamento no espaço-tempo, tem como objetivo desautomatizar ações e funções do corpo contemporâneo, provocando um espaço de reflexão e tensionamento para a criação de novos estados corporais, tal como novas relações com o outro, através de um jogo de acontecimentos.
“(…) Quando os habitantes passarem de simples espectadores a construtores, transformadores e “vivenciadores” de seus próprios espaços (…) Uma situação construída seria então um “momento da vida, concreta e deliberadamente construído pela organização coletiva de uma ambiência unitária e de um jogo de acontecimentos”. (Berenstein-Jacques, 2003: PP.20-21).
Portanto, o nômade, neste ato de territorialização e desterritorialização, neste constante devir, coloca este corpo como o entre-lugar, um espaço do novo, intenso e afetivo, onde a experiência com o Fora, provoca um nomadismo da existência e a emergência de um corpo singular, sempre em deslocamento no espaço-tempo.
O corpo, portanto, não é, ele está sendo. O corpo é percepção, cognição e representação de mundo e pensamento, e é neste viés, que a ideia da Oficina de Composição Cênica surge, buscando provocar novos conceitos e teorias através da desterritorialização de modelos e padrões de movimentos corporais, os quais são constituídos a partir de hábitos e vivências cotidianas.
Para tal, as linguagens dos estudos abordados na oficina envolvem o reconhecer o que está em um corpo e em todos os outros, sejam estes humanos ou não, determinando um compartilhamento/troca, a elaboração de informações, a colaboração. Este colaborar pode ser feito através do olhar atento, do perceber o ambiente, o olhar não é neutro, ele vê e modifica, o corpo se modifica e ele vê, é uma coevolução.
O espaço intervalar se denomina então como um terceiro espaço, rico em tensões fronteiriças, capazes de expandir sentidos, onde as diferenças são potencialidade criativa, um espaço do devir.
Trata-se então cognição e recognição como local da cultura, o corpo através de seu aparelho sensório-motor, sendo conceito, percepção, pensamento e local de experimentação. Um não-pertencimento, um não-lugar, um não-ser, é onde se encontra nossa cultura, suas mestiçagens e processos combinativos pairam nesse entre-lugar em deslocamento, onde acontecem sobreposições e a permanência de uma cultura híbrida, rica em diferenças.
A Oficina aponta este deslocamento da cultura, desponta novos horizontes para esta cognição coletiva e nômade, onde o oficineiro é provocado a produzir, emitir e receber estímulos, criando uma experiência cênica coletiva, onde as narrativas se interpenetram. Portanto, não existe uma narrativa pré-estabelecida, com funções e lugares marcados, ela se dá através de uma cartografia afetiva, que é provocada pela afetação e percepção de todos os corpos em presença no espaço-tempo da cena. Os saberes de cada corpo são vulnerabilizados, e uma nova cultura da cena contemporânea é provocada a existir, com novas maneiras de narrar a experiência e novas formas para a criação de narrativas, que geram outras territorialidades a partir de desterritorializações.
Essa experiência vem responder a inquietações quanto a produção de um corpo cênico que é capaz de, a partir de novas propostas de compartilhamentos, criar uma outra cultura na relação ator/corpoespaço, que carrega esta nova compreensão de corpo cênico coletivo através de teorias e práticas compartilhadas.
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Dani Greco.